* por Rutty Steinberg

Caminhando entre as flores e o rio de um lugar belissimo, a reflexao e quase inevitavel. As cores, o silencio, a beleza, um dia lindo. Penso nos imigrantes e na transformacao necessaria para se conviver com os limites e possibilidades com os quais nos deparamos em Israel, no campo profissional. Quem ousaria reclamar das questoes materiais, da ajuda recebida, quando aqui chegamos? Seria ingratidao. Em nenhum lugar do mundo isso acontece. Mas, falemos de algo que passa pelos sentimentos dos imigrantes, que buscam o desenvolvimento de seu hebraico, e de uma atividade que seja tao gratificante quanto foram os anos de trabalhos exercidos em seu pais de origem. E que, geralmente, nao garantem qualquer posicao sequer parecida em Israel, a nao ser que mais alguns anos de estudos, provas e estagio sejam realizados. Tudo em hebraico, e claro! Nao e facil aceitar, neste momento, que cada cultura tem direito a sua expressao, aplica as suas leis. E, acreditar que a vida e muito maior do que as regras criadas pelo homem, a chave para a criatividade, nao funciona como antidoto para o grande desanimo, as vezes o inicio de uma grave depressao. Nao cabe aqui questionarmos se as tendencias depressivas seriam antigas, uma vez que o efeito e o mesmo. Como assimilar tal nivel de frustracao, ser proativo, lutar? Como se faz para guardar toda a experiencia profissional, o conhecimento adquirido em anos de estudo e dedicacao, e ingressar na batalha pela sobrevivencia, afastados de escolhas, muitas vezes, paixoes gratificantes? E que poderiam ser uteis. Sera que devemos nos reportar a essencia de cada um, aquele pontinho que parece minusculo e comeca a brilhar, invadindo mente e coracao, trazendo novas ideias de recomeco, de atencao ao que andava encoberto? Quem sabe, se por tras da tristeza inicial, ha uma possibilidade, uma informacao que seja, justificando toda essa transmutacao? Afinal, harmonia, equilibrio e integracao sao partes de um processo existencial bastante complexo...Motivacao? Havia quando os preparativos para a viagem estavam sendo feitos. E agora ? Aceitar o que se encerra e sempre uma questao de ponto-de-vista. Sera que o novo pode invadir territorios guardados pela nossa resistencia em mudar? Nao acredito. No entanto, certamente nao podemos escolher nada que nao saibamos o que e , e nem sempre as reformas do que antes era prioritario sao o melhor caminho. Onde estao as placas que nos guiarao por um novo pais? Creio que essas perguntas tiram o sono de muita gente... A aliyah nos remete ao mundo interno, onde avaliar e a ordem do dia. Avaliacao de valores, habitos, ideias, crencas, expectativas, sonhos, idealismo, o proprio judaismo, comparacoes entre visoes de vida, jeitos de se relacionar...e solidoes antigas. Se nao formos capazes de transmutar a solidao em solitude, a depressao batera a porta sem piedade. Mas, se conseguirmos redescobrir nossos talentos, sorrindo ao reencontro, e criar novas habilidades, admirando nossa propria coragem pela abertura a mudanca, a auto-estima tera espaco para se desenvolver. Dizem os sabios que e uma lei do universo: se nos sentimos de bem com a vida, atraimos oportunidades semelhantes. Oportunidades essas talvez bem diferentes de nossas expectativas, que nasceram em nosso lugar de origem. E que, em ultima analise, dependem de nossa resistencia a frustracao inicial. Existem aqueles que nao perdem a esperanca, porque acreditam na vida, na evolucao, desejam nao depender de circunstancias externas para o encontro consigo mesmos, ja que estas sao os desafios escolhidos, repletos de licoes embutidas. E existem os outros, que nao suportam a desconfirmacao, o nao pertencer. Nao se trata aqui de lamentar, ou mesmo de vitimizar, mas da abertura e enfrentamento de um conflito, onde o apoio e o reconhecimento permitam a construcao de uma nova identidade para os olim. Para o imigrante, muitas vezes, o espelho parece refletir apenas dificuldades, e nao o sonho que motivou sua aliyah

A autora, Psicologa brasileira, reside em Israel desde 2007 *